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Blog de loromora
 


BOM DIA

          Era manhã e o dia estava cinzento, nublado, frio e sugeria aos desatentos um convite sutil para se envolver em um cobertor e dormir o sono do descanso, porém para aquele senhor que havia saído de sua residência a fim de estudar em uma universidade distante, não era possível se dar ao luxo de desfrutar de tão supérfluo deleite. Entrou na estação do metrô a espera do trem que o levaria ao seu destino. De súbito apareceu uma bela jovem, de óculos escuros, bem vestida, de pele branca como a neve e rosto pálido, parecia estar chegando de uma festa e ao mesmo tempo, por sua beleza, parecia também estar  indo passear.

          O trem chegou, os dois entraram no mesmo vagão e se sentaram no mesmo banco. Ele lia um romance, que, sem perda de tempo o tirou de sua mochila e passou a ler compenetrado, até que, sentiu a cabeça da jovem cair suavemente em seu ombro, num sono profundo.

          Todos os que estavam perto olharam para a jovem e ao mesmo tempo para o senhor como que tentando adivinhar qual seria a reação daquele senhor já de meia idade que não ofereceu reação alguma, somente um sorriso de satisfação saiu de seus lábios, fazendo transparecer um ar de serenidade no rosto cansado, porém, se deleitava com a experiência de ter uma jovem tão bela na paz que ele podia oferecer por meio de seu confortável ombro.

          A leitura do romance ficou entrecortada, devido a presença de uma hóspede inesperada que ocupava agora, o pensamento daquele homem, todavia a viajem se tornou agradável ao senhor e também à jovem dorminhoca, que parecia uma anjo a vagar por lugares inefáveis. O barulho pitoresco das rodas nos trilhos, as conversas entre as pessoas, os apitos das campainhas que soavam de estação em estação não ofereciam concorrência  para aquele macio e confortável ombro que parecia um travesseiro de plumas.

          Não faltaram olhares de reprovação. Uns balançavam a cabeça negativamente, outros, com olhares acusadores e ainda, os mais atrevidos em julgar as aparências, estalavam os beiços em tom de reprovação, fatos que não incomodavam aquele senhor, pois em seu pensamento surgiu a presença de sua filha amada deitada aconchegadamente em seu ombro, e certamente ele estava disposto a proteger o descanso daquela jovem desconhecida que lhe causava tão forte emoção.

          O trem parava de estação em estação e o senhor protegia o impacto das freadas para não desperta-la, até que chegou a estação final e com um cutucão calmo, quase que afagador, disse para a jovem: - Bom dia! É hora de acordar. Ela olhou para ele, gratuitamente lhe ofereceu um sorriso lindo, doce, puro, com dentes branquinhos como o leite e seguiu seu caminho sem dizer uma palavra. O senhor se levantou sorridente, com ar de satisfação e muitos no vagão em que ele estava o ouviram dizer: - Muito boa conversa.   

 

 

Lorival Francisco de Moura.



Escrito por loromora às 21h55
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Agonia

 

 

 

Filho que não tenho é meu,

Filha que penso ter e perdoar,

Filhos que são meus por opção,

Filhos que me querem por adoção.

 

Real e fictício,

Parece ser o vício,

Litígio vitalício,

Real indício de:

Suplício... Suplício.

 

 

 

Lorival Francisco de Moura



Escrito por loromora às 18h10
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ELE FOI EMBORA

 

 

          Após um período de ausência, ele chega todo estragado, ferido por fora e por dentro. Com a alma abatida, cheio de ressentimentos, choro incontido e lágrimas aparentemente invisíveis que todos notavam.

          Os companheiros compadecidos e parece que sentindo seu sofrimento, choram juntos, sentem as dores que ele sente e em abraços, misericordiosamente lhe oferecem tudo, ou a única coisa que se pode oferecer em momentos como este: “carinho”.

          A dor transparece como se seu corpo estivesse aberto ou rasgado, fato que transtorna o lugar, porém faz com que haja unidade, apreensão e muita confusão de sentimentos.

          Além dos abraços e das palavras amigas, ele recebe também roupas novas, um lençol novo, fronha, travesseiro, um cobertor quentinho e um quarto bem tranqüilo para que, após se banhar e se alimentar, possa fechar os olhos e descasar.

          A noite parece ser longa demais. O choro, os murmúrios e lamentos são ouvidos durante toda madrugada, demora a amanhecer, porém, com um dia presenteado a ele, pois deu a entender que o próprio Deus se solidarizava também ao mostrar suas maravilhas e perfeição com alegria.  

          O que não se entende é que logo ao acordar há desprezo por tudo o que recebeu: o carinho, amor, amizade, alegria de revê-lo vivo, o cuidado de todos que sem perguntar nada o acolhem, roupas, lugar para dormir e tudo o mais. Simplesmente, ele resolve partir e ir embora. Conselhos assustados, palavras desesperadas que tentam convence-lo ficar mais um pouco, até o cachorro que não para de lamber-lhe parece falar: - não vá, você está debilitado demais para partir.

          Após tantas tentativas frustradas, ele já com a mochila nas costas, celular no bolso e documentos nas mãos, eu o olho bem no fundo dos olhos e digo: - Se sair nas condições em que você está, o pior pode lhe acontecer, você está vulnerável e sem forças, (física e psicológica), não tem condições para resistir à caminhada, o primeiro boteco ou bar fará você parar e ai o estrago será pior, pois teremos que ir resgatá-lo.

          Literalmente, ele tapa os ouvido com as mãos, franzi a testa, fecha os olhos, levanta a cabeça, olha para cima, larga todos seus pertences e sai sem olhar para trás, nem um simples “obrigado”.

          Só com a roupa do corpo e o cachorro por nome Guará o acompanha e o curioso é que ao passar pelo portão do sítio, o céu se fecha, fica negro, escuro, como se Deus também falasse: - Não vá.

          O tempo se fecha, chove, não em gotas, mas em torrente, nosso coração acelera, há uma incógnita no ar, devido às árvores existentes ali ser abundante e de porte grande e um raio é facilmente atraído naquela região. O pensamento é: “teria ele chegado a algum lugar”.

          Pouco tempo se passa, o celular toca e uma voz chorosa, rouca e tremula diz: - Quero voltar, estou caído, embriagado, molhado, sem forças e correndo perigo neste lugar que não conheço.

          Prontamente e sem perda de tempo, eu e um companheiro, sem olhar para o tempo e a chuva que ainda caia, vamos rumo ao resgate. A chuva logo passa e após longa caminhada, o achamos; Realmente caído, esfolado, olhar baixo, envergonhado e necessitado de amparo até para caminhar, todavia, tudo parece se repetir ao chegar à comunidade; Mais uma noite de sono e tormento, só que ninguém poderia imaginar que o rapaz, ao acordar de manhã bem cedo, toma o café sorrindo, alegre, falante e extravasando simpatia, arruma-se, se compõe, faz as malas e novamente, vai embora.

          Uma semana se passa, ele novamente liga e diz: - Estou morando na rua, quero voltar, pois ninguém me aceita, estou sofrendo. Choro junto com ele, sem saber o que fazer e novamente tento interceder por ele junto aos responsáveis pelo local e recebo a seguinte resposta: - Não lhe faltou oportunidade, porém, “ele foi embora”.

          Nunca mais o vi.

   

 

Por: Lorival Francisco de Moura

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Escrito por loromora às 22h01
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Criaturinha Estranha

 

 

          Um personagem muito interessante apresentou-se a nós enquanto permanecíamos hospedados na cidade de Jateí – Mato Grosso do Sul; Era uma criaturinha encantadora, alegre, disposto e sempre se mostrava muito amoroso e pronto para brincar, fazer carinho e receber carinho. Seu nome, aos seis meses de vida era ainda incógnito, pois queriam chamar-lhe de Almôndega, Faísca, Chuvisco, Stalone, etc, porem não havia uma definição e sempre que ele era solicitado, chamavam-no por um assovio ou por um brusco -”vem aqui”.

          Aos poucos nós nos achegamos a ele e ele a nós, gostamos um do outro e rapidamente fortalecemos nossa amizade, sempre fazendo carícias e recebendo carícias, brincando e sendo sempre requisitados por ele para uma boa brincadeira, correndo atrás dele e correndo dele.

          Refiro-me a um cãozinho muito simpático, exótico e singular, pois em minha existência, nunca antes me deparei com uma criatura dessas, com gostos e costumes tão estranhos de se presenciar, sendo um deles, fazer do nosso pé o seu travesseiro, prato, lugar de descanso, esconderijo, abrigo, enfim, o seu habitat. É em cima do pé de alguém que esteja em descanso ou parado que ele costuma se encostar, onde estiver um pé inerte ou em repouso, lá está também nosso personagem, ora dormindo, ora acordado, vigiando tudo e todos, sempre com a cabeça em cima de nosso pé ou, (em seu entendimento), seu travesseiro.

          Em um dia de muito sol, depois de ser tatuado, maquiado, pintado com um canetão pelas crianças que brincavam com ele, sua aparência assemelhou-se a um “bombadão” e devido aos traços que pintaram nele foi sugerido um nome muito apropriado e devido este nome ser incomum para um cachorro e de ter causado tanta repugnância à sua proprietária, pegou e o cãozinho passou a ser chamado por todos de “Frota”,  pois o cãozinho respondeu como se quisesse aquele nome, era só chamar pelo nome “Frota” e ele aparecia.

          Frota agora parecia querer fazer jus ao nome. Todo dia aprendia alguma coisa nova e crescia rapidamente, também aprendia a se portar no meio das pessoas, conforme íamos lhe ensinando pelas palavras e gestos, novos truques e novas brincadeiras, inclusive, até a vovó o ensinou a buscar o seu ossinho, pois era só falar a palavra “ossinho” que ele corria a procurar o seu objeto ou seu amolador de dentes, que trazia a quem lhe pedia, sempre balançando o rabinho requebrando-se todo, parecia estar rindo de todos, todavia, seu instinto, sempre fazia com que o pé de alguém lhe servisse de prato e tudo o que ele achava interessante para se roer, mastigar, morder, deveria ser em cima de um pé ocioso, e o mesmo se dava quando ele queria tirar uma soneca, por mais que quiséssemos tirar o pé de debaixo dele, não adiantava, ele se espreguiçava,  como quando ajeitamos nosso travesseiro para dormir, ele se esticava todo, mesmo dormindo e achava o pé para continuar o seu sono. Ele fazia de nós como fazemos com os papagaios ao pedir-lhe o pé, parece até que podemos ouvi-lo dizer – “me dá o pé loro”, pois sempre e em todo o momento ele era achado em cima do pé de alguém. Esta situação foi difícil e incomoda, mas acabamos cedendo, devido sua insistência e para não ficarmos brigando com ele o dia inteiro, nos acostumamos ao seu estranho costume, parece que até gostávamos de tê-lo em cima de nosso pé, sempre disputando entre nós mesmos como que querendo ver de quem ele gostava mais ou coisa parecida. Aprendemos com este estranho personagem que sempre vale a pena insistir naquilo de que gostamos e que possa nos trazer algum conforto, prazer ou alegria.  

 

 

Lorival Francisco de Moura



Escrito por loromora às 10h35
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AMOR

 

           Amo aquele rapaz, moço muito bonito, forte, boa aparência e dedicado em suas atividades. Quem pode falar que homem não ama outro homem? Isso é loucura, porém, nunca me senti um homossexual e nem transei com homem algum, apenas tive a má sorte de ser preso, totalmente drogado e bêbado e sem o devido pudor. Creio que para aqueles que me olham de canto de olho foi um prato cheio, pois a notícia se espalhou rapidamente e minha imagem ficou denegrida, mas meu amor por aquele menino continuou enorme. Daria minha vida pela dele e sinto que ele me despreza. Sou repugnante aos seus olhos, minha presença o incomoda, talvez porque ele tem o conhecimento de que o amo e se sente envergonhado.

          Patético? Sim, faz vinte e três anos que este amor existe e hoje não posso lhe dizer. Todas as vezes que o encontro me vira as costas ou faz de conta que não me viu. Isso dói que dói, mas ainda assim amo o jovem mancebo.

          Ainda hoje, após dezoito meses sem o ver, ele entrou no ônibus em que eu estava e virou as costas para mim, fingiu não me ver e ao me ouvir pronunciar o seu nome, tocou a campainha e desceu no primeiro ponto só para não olhar para mim e para que eu não o ficasse admirando com o olhar de quem pede retorno, todavia, eu o amo e sempre o amarei. Anseio por vê-lo bem, por ter seus intentos realizados e sua vida estabilizada.

          Desde que o conheço, ou até antes de conhecê-lo fisicamente, eu o amo. Vi seu nascimento, lhe dei banho de água e carinho, corri com ele no momento em que ele aprendia a andar de bicicleta, também no campo de futebol, arrisquei meu emprego sempre que ele gritava por socorro, seja enfermidade ou outro fato qualquer. Em momentos de minha vida errada pisei na bola, cai e me arrebentei no chão duro, isso o decepcionou e o fez me reprovar. Ele viu seu herói derrotado, perdendo a batalha e se feriu junto comigo. Sei que a dor dele é maior do que a minha, pois carrego culpa também e ele não tem culpa de sua dor. Essa culpabilidade me faz refletir e perceber que sou e fui errado e procuro meios para cicatrizar a ferida, ele não.

          Amo aquele rapaz e hoje me sinto feliz pela oportunidade de tê-lo visto, mesmo que por um breve momento e não sei quando o tornarei a vê-lo, mas amo aquele que para mim sempre será um menino.

          25/08/2011.

 

Por: Lorival Francisco de Moura  



Escrito por loromora às 09h04
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pedido

PEDIDO

Pedi a Deus que fizesse de mim um poeta,

Em um curto espaço de tempo, tudo e todos sumiram,

Os amigos me desprezaram, Os filhos me abandonaram,

A esposa me largou, As palavras bonitas se esvaziaram,

Sobrou-me apenas um caderno e uma caneta na mão,

Deus me falou então: Escreve, escreve tudo.

Para não falar então sobre tanta tragédia,

Refiro-me aos fatos por metáforas e passei a escrever,

Que o poeta precisa sofrer, para tentar entender,

O que significa viver.

Falar sobre sentimentos, escrever pensamentos,

Só se pode fazer, se puder transcender a dor da solidão,

E pintar no papel, a beleza do céu e do coração.

Pedi a Deus então: Basta-me ser poeta, e mesmo que me exceda,

Em pedidos, preces e rogos, me permita ser, apenas poeta.

Lorival Francisco de Moura

 



Escrito por loromora às 23h01
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CARÊNCIA

 

 

 

                O dia anuncia um brilho seco, já não chove mais e o sol promete estralar no céu azul e também no coração ansioso do cozinheiro que nesta data comemora seu vigésimo sétimo aniversário.

                Parece ser um dia como um outro qualquer, rotineiro, porém o ineditismo sempre está presente, não se deixa passar em branco, pois, o aniversariante supervaloriza a data que, logo ao servir o café da manhã, todos ouvem um brado:  -Obrigado Deus! Parabéns pra mim por mais um aniversário. Todos sentados à mesa, subitamente param a refeição, olham para ele com olhar de menosprezo, voltam a comer e o dia parece caminhar normalmente.

                Um fato, porém marca este dia. Durante a partida de futebol, bem no meio do jogo, aparece o rapaz todo enfeitado com farinha e ovo pelo corpo todo, espalhando os condimentos pelo ar, feliz da vida e, com os braços abertos pede, suplica um abraço de todos os que estão jogando e, logicamente, todos se esquivam, mas o ingênuo jovem não percebe devido seu estado de euforia. Logo desaparece de sena, some, reaparece limpo, roupas trocadas e retoma suas atividades normais do dia a dia na cozinha.

                Durante o jantar uma surpresa, ele todo ansioso, não se contem e anuncia um bolo, refrigerantes, doces, velinha de aniversário e tudo o mais. Faz questão de que se apaguem as luzes, acendam as velinhas, cante parabéns e que lhe seja concedido discursar. O interessante é que todos o acompanham em tudo, pois o mancebo é mal amado, não sabe lidar com as pessoas é grosseiro,  porém naquele momento sua alegria é radiante e ao invés de esperar para que o abracem, ele pula emocionado ao pescoço de todos e este descontrole emocional é notório. Muito chorão, meloso, diz: - Isso nunca aconteceu em minha vida.

               O ocorrido, até aquele dia era inédito e todos, naturalmente apreciam muito, só que as novidades não terminam por ai. Logo após a última oração do dia, todos já  banhados, trocado de roupas, só esperam o toque de recolher, quando novamente ele toma a cena e sobe em cima de uma das mesas, tira alguns ovos do bolso e grita: - Tem alguns ovos aqui, quem quer quebrá-los em mim? Logo aparecem os voluntários e, ele mesmo, com alegria anormal e incomum, enfia as mãos no bolso, da os ovos aos colegas, pega um pote de Chocolate em pó, um pacote de farinha e se lambuza todo e a todos.

                Novamente, todos ao banho. Felicidade estranha, diferente, reflexiva e todos se recolhem aos aposentos. O outro dia se inicia normalmente, nenhum comentário, nenhuma pergunta, parece que nenhuma lembrança, ninguém sabia o que falar ou como falar, a noite fiquei sem sono, refleti muito sobre o dia do aniversário do jovem que em um único dia conseguiu extravasar como uma explosão a  incontida carência que sentia.ue em um r de ar ou como falar, parece que apenas eu fiquei sem sono, refletindo sobre o dia do j ovos do bolso e grita: - Tem  

     

Por:  Lorival Francisco de Moura

 

 

 

 

Aniversário do Jonatas (21.01.2011) - Criativa



Escrito por loromora às 22h56
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SIMPLICIDADE

SIMPLICIDADE DO CRIADOR AO FALAR

 

 

          Fazemos muitas coisas em nossas vidas que às vezes nos alegram e outras que nos fazem refletir um pouco mais sobre os valores da vida. Para um ser pensante isso é normal, pois todos os acontecimentos ficam martelando em seu cérebro, porém, como subscrito, muitas irregularidades e inconstâncias fazem e sempre querem fazer alguns pensamentos se fixarem um pouco mais que outros.

Nunca senti vontade de tirar a vida de ninguém, mas confesso que já quase o fiz. Deu tremedeira, empalideci, fiquei mudo, fixei o pensamento em um objeto cortante e tive a oportunidade, porém , me controlei, sai de perto da situação e de perto de mim mesmo, solucionando o problema.

          Não posso dizer que nunca senti vontade de morrer e acho isso perfeitamente normal na vida de qualquer pessoa que pensa. Todavia, um acontecimento marcou muito meu ser e tentei contra mim mesmo, sem êxito, é claro. O fato é que ficou muito doloroso e meus pulmões parecia um poço jorrando água sem parar pelas narinas de tanto que, após pensar na besteira que quase aconteceu, chorava incontidamente, como uma crise de choro que não findava.

          Já que não consegui morrer e ir para o inferno, pois sou cristão e creio que essa atitude nos destina ao sofrimento, resolvi ir à igreja procurar renovar meus votos com quem me concedeu essa vida, enfim, pedir perdão, me humilhar, orar e buscar com que aquele peso do atentado saísse e também não precisasse mais andar com um pote de água ou uma toalha nas mãos. O culto foi muito bom, a Palavra como sempre, precisa, houve alegria em meu coração, o choro de tristeza parou, o de alegria não e nem a toalha ficou em casa e um desses fatos marcantes aconteceu durante meu sono, alias que há muito não o tinha. Foi assim: Eu estava em uma feira, um mercado muito grande e repentinamente um passarinho alegre e falante passou pela minha cabeça cantarolando uma canção simples e eu me esforçava para pegá-lo, ele estava já nas palmas das minhas duas mãos, porém ele voava e eu corria, como se ele me conduzisse cantando assim: “SEMPRE CANTANDO VOU, PORQUE VIVO EU ESTOU, SEMPRE FELIZ VIVO A CANTAR, ALEGRE COM MEU SENHOR”. E repetia isso várias vezes enquanto eu o tentava encaixar nas mãos. Ele voava e eu corria. Nessa corrida esse pássaro passou pelo Pastor Vidal, pela minha mãe, pelo meu pai e irmãos, pela mulher com quem vivi muitos anos, pela minha filha e alguns irmãos, muitos irmãos que ali comerciavam e passavam, uns no alto outros mais embaixo e eu subia e descia as escadas com aquele passarinho feliz, alegre em sua canção quase encaixado em minhas mãos. O fato curioso é que pelo caminho, todos que viam a cena, tiravam seus aventais que cobriam seus trajes brancos e corriam atrás de mim cantarolando a mesma canção que o passarinho com uma alegria contagiante puxava aquele enorme grupo de pessoas que como ele, todos felizes, pulando, correndo e cantando:  e mim cantarolando a mesma cançam a cena, vinham atras ilha, alguns irmRE CANTANDO VOU, PORQUE VIVO ESTOU,SEMPRE FELIZ VIVO A C  “SEMPRE CANTANDO VOU, PORQUE VIVO EU ESTOU, SEMPRE FELIZ VIVO A CANTAR, ALEGRE COM MEU SENHOR”. Todos de branco atrás de mim e eu não estava de branco, porém o pássaro era branco e o mais curioso foi que ao passar pela barraquinha de pipocas do meu filho, houve uma incorporação entre o pássaro e eu. Tornamos-nos um e tudo parou com o meu nariz encostado, bem encostado no nariz de meu filho, houve um silêncio momentâneo e eu ou o pássaro parecíamos estar olhando em um espelho, era idêntico o rosto do Vinicius e o pássaro ou eu, não sei, alegre e feliz, após aquele breve silencio, olhando no fundo do olho um do outro eu disse: “Parece que já te conheço”.  Todos deram uma gargalhada enorme,  muito engraçado e continuamos, agora não mais tentando pegar o passarinho, apenas cantando:  :  e mim cantarolando a mesma cançam a cena, vinham atras ilha, alguns irmRE CANTANDO VOU, PORQUE VIVO ESTOU,SEMPRE FELIZ VIVO A C  “SEMPRE CANTANDO VOU, PORQUE VIVO EU ESTOU, SEMPRE FELIZ VIVO A CANTAR, ALEGRE COM MEU SENHOR”. Acordei, escrevi exatamente como sonhei e agora vou enxugar o computador, a mesa e o chão. Estou sem toalha por perto.

 

Por: Lorival Francisco de Moura

 



Escrito por loromora às 10h30
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APENAS FELIZ

 

O pensamento compenetrado em  poema,

O coração dilacerado com lutas, dia-a-dia,

O semblante demonstra tristeza e alegria,

O caminho sugerido pela vida é dilema.

 

A morte pleiteia meu ser com a vida,

A ordem implícita aponta à liberdade,

A lei dos homens transborda vaidade,

A alegria de viver nos é requerida.

 

E como viver um pensamento?

E quando demonstrar  decisão?

E o que deseja o coração?

E onde levar tanto sentimento?

 

Oh! Inefável desejo,

Oh! Harmonia requerida e vivida,

Oh! Fidelidade que me é prometida

Oh! Oportuno ensejo.

 

Ser longânime tem recompensa a mim,

Ser eu mesmo é tolerável a ti,

Ser uma esperança, sim, eu prometi,

Ser feliz é ser assim, enfim...

 

Por: Lorival Francisco de Moura

 



Escrito por loromora às 11h35
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METADE

 

 

Que a força do medo que tenho não impeça de ver o que anseio,

Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca,

Porque metade de mim é o que eu grito, Mas a outra metade é silencio,

 

Que a musica que ouço ao longe, seja linda ainda que tristeza.

Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada, mesmo que distante,

Porque metade de mim é partida, mas a outra metade é saudade,

 

Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor, Apenas respeitadas,

Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos,

Porque metade de mim é o que ouço, mas a outra metade é o que calo.

 

Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço,

E que essa tensão que me corroe por dentro seja um dia recompensada,

Porque metade de mim é ó que penso, mas a outra metade é um vulcão,

 

Que o medo da solidão se afaste

E que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto

Um doce sorriso eu que me lembre ter dado na infância,

Porque a metade de mim é a lembrança do que fui, A outra metade eu não sei.

 

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito,

E que o teu silêncio me fale cada vez mais,

Porque metade de mim é abrigo, Mas a outra metade é cansaço.

 

Que a arte nos aponte uma resposta,

Mesmo que ela não saiba,

E que ninguém a tente complicar,

Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer,

Por quer metade de mim é platéia, E a outra metade é canção.

 

E que a minha loucura seja perdoada,

Porque metade de mim é amor, e a outra metade, também.

 

 

 

 

 

 

 

autor: Osvaldo Montenegro

 

 



Escrito por loromora às 20h30
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Sentimento bom.

 

 

 

                 Naquele momento nada mais importava para ela, sua posição de destaque, a influencia exercida sobre as pessoas ao seu redor, a fama e a fortuna, avaliada em milhões de dólares, a roupa que cuidadosamente escolhia ao sair, as jóias que usava com tanto orgulho, nada disso agora fazia diferença alguma, tudo foi esquecido diante da prioridade, que repentinamente a vida lhe impunha, todo seu estrelismo do dia-a-dia, as manchetes de jornais, as entrevistas, tudo era resumido a um humilde e desesperado pedido de socorro, sua bela aparência, que a fazia tão vaidosa se transformava agora em uma cena trágica, deprimente e incógnita aos olhos de todos que presenciavam aquele sombrio momento. Agonizava, gemia, gritava, se batia, parecia querer falar. Seus olhos, agora arregalados, ainda eram direcionados a tudo e a todos, parecia olhar para todas as direções ao mesmo tempo, porém, quem os conseguia fixar, por breve que fosse, percebia o seu assombro e sua angustia, o ineditismo do abstrato futuro pelo fulminante e súbito enfarto.

                 Durante sua entrada em cena naquele hospital público, nenhuma luz de câmera havia para registrar tão importante momento de sua vida, talvez, o mais importante de toda sua existência, apenas as luzes de seu inconsciente e a dos aparelhos de primeiros socorros que não a perdiam de foco, não havia amigos, aplausos, platéia ou auditório, apenas seus dois filhos e seu esposo, que a acompanhavam em um momento de lazer, não havia seguranças correndo ou esforçando-se para livrá-la da multidão, mas era nítido o som dos passos apressados de todos que se empenhavam para salvá-la e, ironicamente, não a aplaudiam, tudo era rotina para todos dali: médicos, enfermeiros, eu e os seguranças do hospital. Os corredores sempre cheios de macas e pacientes à espera de um atendimento, o cheiro de medicamentos no ar, a adrenalina sempre presente em toda equipe médica como era normal todos os dias; A diferença se fazia apenas para a ilustre personagem, que agora não corria para os braços da platéia e nem estava rodeada de pessoas lhe pedindo autógrafo, ela corria em direção ao incerto, à esperança de vida e não era mais ela quem trazia alegria à platéia e sim, quem a assistia é que lhe podia transmitir, mesmo que inconsciente, uma breve expectativa de alegria.

                 Passada a agonia dos primeiros socorros, os choques, o período de aplicações de vários medicamentos prescritos pelo cardiologista de plantão, durante um período de quase duas horas, o esposo, única pessoa que pode ficar mais próximo de sua companheira parecia querer me falar algo como que, um simples “obrigado”, ou ainda, ele me fez sentir a impressão de um: - “Deus lhe pague”, mas permaneceu calado, assustado, estático, até surgirem às novas sobre o estado real de saúde da ilustre paciente, que até então era desconhecida de todos no hospital.  –“Ela vai ficar bem”, disse o médico, e isso foi uma boa notícia para todos.

                 Sendo aquele um Pronto Socorro e o local mais próximo para um pronto-atendimento, obviamente a paciente não permaneceu ali por muito tempo, logo que apresentou melhoras, chegou uma ambulância particular e a removeu para o convênio que lhe assistia e no final do expediente de trabalho, lembrei-me de que ao chegar à minha casa, seria tudo normal, estaria cansado, todavia, teria alguns afazeres, tudo muito rotineiro, porém, no momento que começou a novela das dez horas, na cena emocionante de amor intenso, foi que percebi ter tocado aquelas mãos, me lembrei também que aquela boca não estava assim da maneira que a via agora, ela estava deformada e não parecia que podia beijar daquele jeito, seu olhar interpretativo era romântico, sensual e expressivo, lembrou-me que amanhã, tudo poderia tornar a se repetir, contudo, fiquei feliz em poder perceber que minha profissão não fazia acepção de pessoas e que era indiferente o paciente ser importante ou ser indigente, o que importava mesmo é o sentimento de alegria ao receber a boa notícia, “Ele vai ficar bom”.

 

 

Por: Lorival Francisco de Moura



Escrito por loromora às 20h29
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SONHO - 14.06.2010

 

 

                Durante a madrugada, após um sonho quase real, acordei chorando devido a conotação ser introspectiva com tom reflexivo e, fixado no episódio deste sonho que pareceu um doce pesadelo, passo a descrever as  minúcias e os detalhes, que foi assim:

                Eu estava preso por correntes em um desses lugares em que se trancafiam muitas pessoas juntas, todos acorrentados uns perto dos outros e uma mulher, também prisioneira, vizinha de minha prisão, me albarroou acidentalmente e ficou muito assustada, fato que me fez perceber um amedrontador respeito imposto a todos, inclusive ao líder local, pois aquela pessoa, sem jeito e chorando, implorava misericórdia para si como quem sabia que iria sofrer um duro castigo, ou até  perderia a vida.

               Este ocorrido me chocou muito, pois meu perfil era de uma  pessoa má e sem compaixão, porém isso passou logo para o esquecimento e agora eu estava parado, observava o lugar, lia visualmente o cenário de meu habitat. Era composto por pessoas entre homens, mulheres e crianças de toda faixa etária, todos presos, o detalhe das correntes eu sabia que existia, mas eu não as conseguia ver e o clima respirado, tanto pelas narinas como o que se sentia, era de flagelo, miséria e desespero.

              Subitamente uma porta se abriu e ao entrar me deparei com pessoas extremamente más, que não faziam outra coisa que não fosse planejar o mau, cada qual em sua mesa, como se fosse um escritório, arquitetando um plano ou projeto para o dia, para a semana, para o mês, para o ano atual e para os por vir de algo ruim e perverso a ser colocado em prática. Era como uma grande empresa.

             Ao sair daquele lugar, já em liberdade no caminho de volta para casa, aquelas pessoas do escritório apareciam e constantemente cruzavam o meu caminho, uns motorizados e outros andando, todavia algo os marcava como se fosse um logotipo de gang, um rótulo que os identificava ao serem vistos. Era muito nítido este sinal, conotava “coisa ruim”.

            Até chegar à rua da casa de meus pais foi necessário toreá-los, dribra-los, com uma habilidade sem igual, quase impossível. Era longo, muito longo o tempo em que estive ausente e, enfim cheguei ao lugar em que cresci, encontrei alguns vizinhos que há muito tempo não via e logo perguntei pelo meu pai a um senhor, amigo da família. – Ele está trabalhando muito, mas muito mesmo, respondeu sem pensar, motivo que me fez sair correndo para casa e ao chegar, a casa já não era mais casa e sim uma enorme e bonita igreja evangélica, bem ornada com um azulejo dourado, porém não vi nome algum, apenas sabia que era evangélica. Fui logo entrando para a casa do zelador e me surpreendi ao ver que meus irmãos moravam ali, ao mesmo tempo eles se surpreenderam em me ver, pois não esperavam. – Onde está o pai? Meu irmão me mostrou um terraço em que se guardavam os materiais de construção em que havia um homem deitado no carrinho, destes de construção, enrolado em uns pedaços de cobertor, todo sujo, maltrapilho e cansado. Ao descobrir seu rosto, me assustei, o baque foi muito forte, “era meu pai”. Olhei para ele e ele olhou para mim com um sorriso cheio de saudades. – A benção meu pai. Ele esboçou responder, porém estava debilitado e muito cansado, apenas balbuciou algo e eu entendi como uma cansada, porém, doce benção. Meus irmãos tentavam impedir que eu chegasse mais perto, porém eu alcancei a mão de meu pai que estava toda enlameada e ferida pelo trabalho duro do dia a dia e, logo apareceu alguém com uma chave que abriu o cadeado das corrente que o prendiam no carrinho.

             Perplexo com o que presenciava, tomei-o em meus braços, o separei das correntes, o abracei forte e chorei um choro muito sentido, apoiando-me em seu ombro e minha mão esquerda, apertando suas costas, sentia seu coração bater e, ele ofegante, quase sem forças disse: - Deus te abençoe meu filho. Mais uma vês ele se esforçou muito e falou: - meu filho, meu filho! Olhou-me de frente, me encarou com os olhos cheios de lágrimas e ao olhar para seu rosto, ele era eu.

 

 

 

 

Por:   Lorival Francisco de Moura



Escrito por loromora às 14h13
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 51 parecem embriagados

 

 

                Certo dia pessoas, consideradas pela sociedade como “adictos”, seguem caminho até a simpática cidade de São Carlos, a fim de participar das olimpíadas que se realizam todos os anos entre àqueles que sofrem problemas de ordem psíquica, seja por dependência ou não. Dentro do ônibus a caminho do local, um fato chama a atenção de todos, foi assim: uma menina que, devido ao Português cheio de gírias, palavrões e vícios de linguagem, totalmente fora do padrão e em desuso, ao referir-se a si mesma em quando vai usar o banheiro para fazer o nº 2, sai uma frase mal cheirosa, porém natural:  - “Vou c...”, diz ela constantemente e isso fica impregnado como sugestão em nossa mente, parece até, que guardado para o momento em que se esta em plena estrada já escura, quando ela se levanta de um dos  bancos da frente com um rolo de papel higiênico em sua mão sem perceber que  os olhares, fixos, se unem a uma única sena, “ela”,  porém percebemos que de súbito ela para, trava,  trança as pernas, tranca, amarela, fica vermelha e logo empalidece, sem perceber as filmagens atentas, olha para traz, recua,  caladinha, guarda o papel e senta-se, porém, logo em seguida o odor exala espontaneamente pelo ar e ninguém consegue conter os sentimentos de repugnância,  não é possível engolir, protestos nas mais variadas formas e níveis, desde o mais nobre como: - “Que maravilha!!! Até o mais baixo: - Ai, isso é que se chama bufa!!! Ou, - Poderia esperar chegar!!! que horror!!! Cada um com uma piadinha diferente e bem humorada para a ocasião, além do que, em pleno frio gelado da madrugada, todas as janelas do ônibus se abrem para se poder respirar ar sem mistura. Isso até chegarmos à parada programada , e ai, só ai, um colega que até o momento se mantém calado, assustado e perplexo consigo mesmo, pede ajuda a um dos monitores, dizendo: - tem algum remédio para o estomago por ai? E devido ao estrago causado em que o rapaz tem até que trocar de roupas e ao desespero daqueles que quase morrem afogados fora d’água, a alegria continua, passa o terror e a menina é esquecida momentaneamente.

                  O alvo agora são os jogos, o que também é esquecido ao chegar à cidade, pois agora há no semblante sonolento e cansado de cada um dos participantes, inclusive no dos monitores, uma perplexidade ou maravilhosidade ao se deparar com a receptividade do local e ao calor provocado pelo encontro entre as cidades que se fundiram em uma só, neste inesquecível dia, pois o cansaço é substituído pela alegria, o sono é superado pela disposição em conhecer novos colegas. Todos ligeiros no agir e no pensar, todos espertos e aptos à proposta de cada disputa, seja: futebol ou fubeca, cabo de guerra ou rodar peão, desde o dominó até o jogo de gamão, ganhando ou perdendo, não há espaço para tristeza nem rancor, apenas para o gostoso sabor de se abraçar os adversários, a beleza do evento é que, toda malandragem é usada para se extrair um sorriso ou um abraço do oponente, durante ou após a disputa, parecem agora, crianças que sorriem apenas ao serem olhadas ou observadas, clima de unidade, monitores misturados com usuários, ninguém distingue a função de ninguém, isso não é importante e parece que o mais importante é esquecido, todos os 51 parecem embriagados e com os sorrisos de crianças, estampados no rosto de cada um.

 

 

 

 

 

 

Por: Lorival Francisco de Moura



Escrito por loromora às 19h35
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SAUDADE

 

            Nunca foi, é ou será fácil escrever os sentimentos, pois nossa habilidade com a escrita pode elaborar textos difíceis de entender, porém, apesar de letras bonitas, de colocações gramaticais corretas, sentir saudade está em um plano diferente de soletrar, é descrever o significado de um sentimento que, é subdividido em: alegria, tristeza, prazer, amor, rancor, dor, sabor, consentimentos e ressentimentos, porém, jamais alguém poderá definir o que é realmente a saudade sugere de fato à cognição humana. O saudosista se esforça e se empenha em transmitir o que está sentindo e é até bonito quando lemos ou analisamos o conteúdo literário contido em seus versos, todavia os versos, as rimas, as frases não conseguem descrever o sentimento em sua totalidade, pois trata-se de algo singular, abstrato, incógnito, inefável, cheio de assombros, marcados por choros, risos, sensações e emoções cujas recordações provocam as lágrimas escorrerem timidamente na lateral do olho e também esboçam um sorriso interno na alma daquele que a sente. Esse inexplicável sentimento está embutido em todo ser humano normal, pode ser comparado as impressões digitais dos dedos das mãos, pois nunca se poderá, em hipótese alguma, ser uma saudade, igual à outra. Uns sentem mais, outros menos, pode se sentir de momentos bons, porém, são raros os que sentem de momentos ruins, pode ser de pessoas queridas presentes ou de quem partiu.                    Uns sentem em menor, outros em maior intensidade. Há pessoas que a demonstram e outras que a escondem. Há saudades que alimentam a esperança e alegria do reencontro, outras alimentam a desesperança de tragédias e dos desencontros. Não sabemos ao certo quantos tipos e nem quantas formas de saudades existem. Não há lembrança sem despertar saudade ou não saudade. Sabemos apenas que a saudade carrega em si mesma uma ironia e um paradoxo. Nenhum ser humano ao a sentir quer sustentar por muito tempo o saudosismo em si, seja qual for o tipo, de alegria ou de dor, mas é difícil achar um ser humano que não sente com alegria a dor de uma grata saudade.  

 

 

Por: Lorival Francisco de Moura



Escrito por loromora às 19h32
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TADINHA DELA

 

 

 

                 - Não suporto ver sofrimento, falou a atendente com os olhos estalados e expressão de medo misturado com pavor, lábios escuros e rosto pálido, de cor inefável.

                  - Mata logo de uma vez, que agonia!  

                  - Por que tanto ódio assim, isso faz mal à saúde, coloquei em um tom irônico com o fim de chamar sua atenção para o serviço dela, que naquele momento era me atender, porém, ao olhar para as outras meninas, percebi o mesmo espanto e umas até choravam e tremiam, como a crise que se tem ao olhar no caixão o ente querido pela última vez, ou de quem acabou de sofrer um impacto emocional muito forte, achei interessante, pois parecia um concurso de quem estava mais assustada. E a atendente, novamente gritou, desta vez com um tom mais forte: - Mata ela de uma vez, só que olhando bem fundo nos meus olhos, insinuando que eu era quem deveria fazer o serviço, o que em princípio muito me preocupou aquela indireta apontada com as setas de um olhar solícito. – Parece que um tornado passou por aqui e percebo que o Zorro estava montado nele; ela me olhou fixo, deu aquele sorriso repentino de quem entendeu a piada, mas logo, desviou o seu olhar para um ponto da sala e voltou a ficar piripaqueada e com o mesmo olhar assustador e assustado.

                  -  Mata logo essa coisa!!! Ela está sofrendo.

                  - Não seria melhor chamar uma ambulância para as socorrer ao invés a matar? perguntei meio sem noção do que dizia. – O senhor ta de brincadeira comigo? Eu to falando sério e o senhor fica caçoando de mim? Desabou a chorar e a ter estremiliques, como se fosse desmaiar. Aí eu percebi que o assunto era sério e que alguma coisa precisava ser feita, pois eu só fui à Universidade buscar o meu diploma de graduação, sendo que a saudade e emoção inicial de pisar novamente naquele lugar em que três séculos vividos em três anos foram palco de muitas alegrias e decepções, logo foram esquecidas diante da trágica cena. Algumas meninas já se refaziam, enxugavam as lágrimas, retocavam a maquiagem e outras tomavam ainda água com açúcar, providenciada pelos rapazes que ali trabalhavam, porem, subitamente a atendente se tremendo toda, subiu na cadeira e ficou como uma estátua apontando com o dedo indicador para baixo e bradou: - Alguém, por favor, mata logo porque ela ta sofrendo e eu já falei que não gosto de ver sofrimento!!! Aquilo me fez subir o sangue e logo me prontifiquei a fazer o serviço. – Me fala quem é que eu executo, pois estou com pressa e preciso trabalhar! Com o dedo indicador ela apontou para o chão, debaixo da cadeira que estava sentada e falou soluçando: - Ela ta esperneando moço, ainda ta viva, mata logo essa barata de uma vez, “tadinha dela”.

 

 

Lorival Francisco de Moura

 



Escrito por loromora às 18h20
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